5.29.2016

Avô

Faz hoje um ano que a F. chegou perto de mim em silêncio. Eu já tinha percebido. - O teu avô morreu. Perguntou-me se me podia ajudar de alguma maneira. Como me conhece, abraçou-me e deixou me sozinho. Sentei-me ao computador. Não consegui chorar, apenas escrever.
Não cheguei a rever o texto, aliás só o voltei a ler hoje.

Vai tal e qual como está, por ele.



O meu avô morreu hoje. Partiu o último avô que me restava. Tive sorte, a morte levou por último o meu favorito (os outros que me perdoem mas sabem que é verdade). O meu avô foi durante muito tempo o meu melhor amigo. Os putos na escola falavam do seu amigo favorito e descreviam-no, eu só conseguia encontrar esse amigo número um no meu avô. Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta e que me viu cair vezes sem conta. Foi ele quem me ensinou a fazer a prova dos noves numa altura em que isso já não se ensinava na escola. Graças a ele fiz um brilharete. Dizia à boca cheia - foi o meu avô quem me ensinou. Foi com ele que tive a primeira e todas as seguintes conversas sobre gajas. Foi ele quem me falou no bairro alto quando fui estudar para Lisboa e me perguntou se ainda estava cheio de putas. Eu ri e respondi  que não, pelo menos que eu tivesse dado conta já não estava cheio de putas. Não havia tabus entre nós. Falávamos assim, sem filtros. Parecíamos quase da mesma idade. Foi ele quem me deixou pegar pela primeira vez num carro e quase que o ia espetando contra uma muro mesma à porta de casa. Foi com ele que eu passei muitas das melhores férias da minha  vida. Lembro-me de ficar feliz até rebentar sempre que descobria que ele nos ia visitar. Lembro-me de ficar horas a fio ouvi-lo contar as suas histórias. Era um óptimo contador de histórias, dos melhores que já conheci. Falou-me de uma tal guerra como nunca ouvi ninguém falar, falou-me da sua infância e nunca me escondeu nada. Nunca o ouvi dizer que eu não tinha idade para isto ou para aquilo. Para ele eu tinha a idade certa para saber o que ele tinha para contar. Já para o final a doença levou-o aos poucos. Tenho saudade das histórias. Tenho saudades de me sentar no seu quintal e ouvi-lo falar horas a fio, ou comentar as notícias, ou falar do Benfica (eu nem ligo a bola, mas era contado por ele). Tenho saudades de ele me fazer fatias douradas para o pequeno-almoço e de me obrigar a sair da cama cedo senão arrefeciam. Tenho saudades hoje, e as saudades não tendem a acabar nem a ficar mais pequenas. Eu cresci a querer ser como o meu avô, muito do que sou devo-o a ele por ter sido um dos poucos modelos que nunca me falhou. Ele partiu, dizem-me que foi para um sítio melhor. É pena a minha fé não chegar a tanto. Mas vou fazer por acreditar. Vou contar as tuas histórias até me cansar para que elas não morram também.

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