8.14.2013

Série "Coisas Boas Não Têm Preço" - Capítulo I - O Jantar


Mariana saiu do edifício sujo que abrigava o call-center onde trabalhava. Na rua, as poucas pessoas que passavam, esfumam-se ao dobrarem as esquinas. Numa cidade fantasma, nada melhor que agir como um. E foi isso mesmo que Mariana fez. Meteu os phones nos ouvidos, escolheu a banda sonora para a viagem até casa, e caminhou até à estação de metro.
Pouca gente na estação também. Gostava que por ali passasse alguém que pudesse observar para se distrair. Só a música não a deixava ausentar-se. A humilhação desse dia de trabalho martelava-lhe o espírito.
Mariana, umas das melhores alunas do seu curso fazia, já se podia chamar assim, carreira num call-center. Deram-lhe um lugar ao qual chamaram algo mais pomposo. Ofereceram-lhe mais responsabilidades, vulgo dores-de-cabeça, e uma remuneração superior, vulgo algo-mais-que–a-miséria-inicial. 
Recta final de um dia de trabalho enfadonho, surgiu um problema, e às tantas Mariana já estava perante um superior odiável. Conversa para aqui, conversa para ali, depressa se chega à conclusão que a incompetência era sua, entre outros adjectivos menos simpáticos. 
Mariana sentiu vontade de lhe gritar: - Podes enfiar este emprego no cu ó meu gordo estúpido! Aposto que não vês a ponta da pila desde os 10 anos! No entanto ensaiou o melhor sorriso/ ar de arrependimento e sussurrou: - Lamento chefe… Com certeza chefe.
Fim da conversa. O chefe aligeirou o ambiente, lançou uma piada forçada, e desejou-lhe um resto de boa noite, como se tal fosse possível.
           Mariana sabia ao que ia quando se candidatou. Mas também sabia que as contas não se pagavam só da sua boa vontade em arranjar emprego na sua área.
Foi com o cérebro ainda aos berros com o otário do chefe que entrou no pequeno apartamento.
Sentiu um calor simpático e o cheiro característico da pequena casa no último andar de um prédio antigo. Perto da cozinha outro cheiro. Jantar?
Bolas Pedro, é preciso sujar tanta loiça? – pensou, enquanto contemplava a pilha, qual escultura pós-modernista de tachos e panelas.
Despiu o casaco e deixou cair a mochila a um canto. Já na sala perdeu largos minutos a apreciar a mesa. Tinham conseguido encaixar uma mesa a um canto, não era propriamente uma sala de jantar, mas servia para eles dois.
Velas, uma toalha lavada sobre a mesa e um bilhete – O jantar está no forno, desculpa se já não estiver acordado quando chegares. Amo-te.
E não estava. Pedro encostado com o comando prestes a cair da mão.
Pedro, que lhe preparou um simples jantar, que sujou mais loiça do que a necessária e que adormeceu antes dela chegar, foi o único a arrancar-lhe um sorriso que mais ninguém viu.



N. do A: Pedro e Mariana são personagens fictícias, assim como o chefe odiável, gordo, de pénis reduzido.




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