1.18.2010

O velho quarto

Abro a porta a custo. Sempre a conheci assim, perra como o raio. Uma luz tímida invade aquele que já foi o meu quarto. Lá fora chove. Não esperava boas vindas mais radiosas, afinal se o quarto fosse alguém teria ficado magoado com a minha subida partida. Passo a mão pelo velho móvel, estranho…sem pó. Parece que o tempo parou desde que abandonei aquele espaço. Está tudo no mesmo sítio, intocável. Sinto-me dentro de um museu. Sou um estranho que invade um espaço que não é seu. Faz sentido, afinal é o espaço de alguém que já fui. Mudei, e o meu velho quarto deu conta disso, talvez por isso hoje não apresente o brilho que lhe era tão característico. Encosto-me a uma parede fria para contemplar a rua pequena demais para tanto carro e tanta gente. Tudo igual lá fora; a clientela do café vê quem passa, o coro de buzinas ataca quando o sinal passa a verde. Muitas pessoas passaram e passarão por este quarto, por isso não me sinto no direito de o reclamar como "meu". Talvez tenha sido durante aquele tempo. Fecho a porta devagar envergonhado, sem lançar um último olhar ao espaço que deixo para trás.

Rabiscado na última noite que fiquei na minha antiga casa em Lisboa.


Hoje, depois do telefonema de X, Lisboa assaltou-me novamente os sentidos.

1.13.2010

Enquanto*

I

Enquanto um lamento ecoa numa rua escura,
Há quem veja pela primeira vez o mundo.
Enquanto desviamos o olhar,
Na televisão já começou outro filme.

As luzes apagam-se uma a uma
Enquanto eu desperto para um novo dia.
Ela veste-se sem pressa,
Enquanto eu olho pelo canto do olho.

Ela partirá sempre à mesma hora
Até que lhe diga para ficar mais.
Enquanto ela fecha a porta
Passa um anúncio qualquer.

Desvio o olhar da televisão,
Enquanto escuto uma conversa de corredor.
Já nasceu a filha da vizinha do 2º esquerdo.
Enquanto lamento não ter coragem para dizer...

II

Enquanto o nosso mundo descansa
Outros avançam a bom passo.
Enquanto nos fechamos sobre nós
Há quem se consiga abrir a alguém.

Enquanto deambulamos por ruas
Que não nos conhecem,
Encontramos pessoas que já nos conheceram
Mas viram a cara ao ver,
Que enquanto elas seguiram em frente
Nós parámos no tempo.

III

Enquanto tu encontras a desculpa adequada
Eu abro a porta com um gesto controlado.
O frio da rua entra,
E tu sais com um passo demorado.

Eu vejo te desaparecer rua abaixo
Enquanto acendo um cigarro.
Adivinho-te um rosto pesado,
Enquanto me arrependo amargamente.

*Ou o regresso ao blogue