12.02.2008

Café + 2 dedos de conversa

O sol aquece a esplanada da esquina. As velhas cadeiras metálicas, resistentes ao progresso plastificado, convidam a sentar, desfrutar da vista sobre a cidade e aproveitar os últimos feixes luminosos de uma tarde de Outuno.
“Então...tudo bem?”, “Tudo! E contigo?” O ritual começa a partir do momento em que reclamamos uma mesa como nossa. Olhamos em redor, vitoriosos! Não há bandeira mas se a houvesse não hesitaríamos em espetá-la em jeito de conquista territorial.
A conversa ainda é morna, circunstancial, “Então a Ana como está?”, “Linda! E enorme, nem te passa!”.
Chega o empregado. Dois cafés. “Este gajo novo é meio fanhoso não é?”
Risos. “Se fosse a ti falava mais alto!” Mais risos.
O pedido mudou o rumo da conversa. “Por falar nisso, o que é feito do fanhoso?”, “Então não é que sacou a tal sueca! Aquele gajo pá…”
Foi a deixa para se debruçarem sobre as recordações, os velhos amigos, “O que é feito desse?”, “Ui não o vejo há anos.”
Chegam os cafés. Fumegantes, invadem a mesa com o seu aroma forte. A conversa prossegue por entre pequenos goles. Acendem-se dois cigarros que irrompem a já instalada escuridão.
Um deles aproveita a pausa e fita a chávena que revela os muitos anos de fiel serviço àquela casa. Depois de repousar o olhar nos telhados das casas ao longe, atira, “Então e olha lá uma coisa...”
Esta é a senha, é um sábio timoneiro que muda novamente o rumo da conversação.
As confidências seguem-se, e os velhos amigos partilham o que de mais pesado carregam, o que mais os alegra, entristece, decepciona, num profano confessionário improvisado naquela mesa da esplanada da esquina.
Finda a viagem por águas mais profundas pagam a conta e separam-se. Perdem-se os dois na grande cidade com o peito mais quente.
Culpa da conversa, e também do café claro.