10.29.2008

Anormal Sensorial I




E ninguém ouviu. Foi um grito surdo que lhe queimou a garganta e quase arrancou a cabeça.
Os que passavam assistiam ao triste cenário da degradação do homem.


No interior da sua casa, no conforto daquilo a que chamava lar, mas na inquietude de si mesmo!
Talvez isso o tenha levado a cobrir o tronco nú com a t-shirt que se acomodava no chão.
Saiu, e de uma só vez inspirou toda a rua. Depois olhou bem para cima. Não conseguiu ver onde começava a chuva e,
talvez,
por isso,

Gritou!

10.27.2008

Conforto Nocturno

Atira-se o corpo para cima de um banco de jardim meio partido, meio consertado, que jaze sobre a guarda de um velho candeeiro. Pensa-se na vida, nas coisas do mundo e outras mais, enquanto se contam os trocos para o tabaco e se enxota um cão vadio.
A noite percorre a cidade, escurecendo cada beco e viela. A penumbra dá outro toque a este cenário. Comenta-se quem passa. Quando não passa ninguém, fala-se do jogo, da política, da vida das gentes e da nossa também, fala-se…
Quando não há mais assunto, deixa-se o silêncio assentar, tal como o pó depois da batalha. Escutam-se os uivos da noite, da urbe que dormita, de olho meio aberto. Sente-se o calor forte das noites de verão, o cheiro da gasolina queimada, o restolhar seco, enquanto o Tejo ao longe sacode gentilmente o seu manto majestoso.
Ressoa o barulho da multidão, das buzinas, dos gritos, num eco mudo que abandona o espaço e se extingue.

Fico mais um pouco, apreciando o confortável e consolador silêncio que a noite nos oferece.

10.19.2008

Em Viagem


Viajamos.

Ao fundo do que somos, ou do que pensamos que somos. Ao fundo do que temos e do que não temos.

Viajamos.

Novos sítios, novas gentes, as ideias a mil… seguimos viagem.

Destinos incertos – já desistimos de planear – as rotas são traçadas, corrigidas, rabiscadas, apagadas…

Rotações em alta; o motor é o coração, o volante a razão.

Viajamos.

E em cada viagem uma conquista, um deslumbramento, uma história.

Seduzidos pelo calor do asfalto, seguimos…