5.29.2008

A Espera

Hoje gostava que viessem. Vinham todos, e entravam como se em vossa casa estivessem.
Depois sentavam-se onde pudessem, nas poucas cadeiras, no chão… Ninguém teria pressa de sair, ninguém teria compromissos, ninguém teria outro mundo, que não o nosso, à espera. E aí o tempo seria nosso, de novo!


Hoje fiquei. Simplesmente à espera. Deixei uma porta aberta para que pudessem entrar sem pedir licença, para que o incómodo das formalidades não quebrasse o encanto da chegada.
E esperei mais um pouco.
A noite caiu e não vos trouxe como de costume.
Onde andam hoje? Onde?

5.19.2008

Pornografia


Tens futilidades para dizer?
100 pessoas escutarão.
Algo interessante?
10 pessoas virão, 3 discutirão isso contigo.
Um post com este título?
Há malta que virá aqui parar por engano…
(A esses, desde já as minhas desculpas.)


Nudez

As palavras, dependendo da agilidade e do temperamento, podem aparecer mais ou menos adornadas. O pensamento – despido! Despido e desprendido! Ainda bem que nos restam espaços onde esta nudez é aceite. Ah! A apreciação dos corpos, a contemplação, o deleite de ver para além desses corpos! Uma visão cheia de formas, olhos que devoram o espaço em busca de mais e mais…
Depravação sensorial, que sabe tão bem.


Masturbação

Vale-me que neste deboche não há censura! Por isso nada me impede de assistir à tua masturbação mental. Os estímulos não são óbvios. Para uns são apenas palavras, para outros pornografia barata.
E pouco me importo se me exponho, se me pavoneio, e deixo uma nesga da porta propositadamente aberta para me veres. Deixo a mente aberta, para que os pensamentos saiam livremente.


Orgasmo

União da carne. Espaço e tempo. Unos.
É vires ao encontro do que te escrevo, mesmo que não o saibas.
É desejares mesmo sem quereres mostrar.
É o saciar da vontade num último gemido.


Consolo

É ficar aqui,
saber que me lês.
E isso basta.

5.02.2008

Fim de noite

Fim de noite. Em que voltamos ao que realmente somos. É aí que o disfarce cai. A maquilhagem gasta do suor da dança revela imperfeições, o álcool em excesso revela fraquezas bem disfarçadas, a carteira vazia mostra quanto custou o abuso, e no corpo dorido começa a sentir-se o peso da boémia.

As beatas acumulam-se no chão. Os copos vazios sobre as mesas. A música está mais baixa.
Os poucos que ficaram falam. Pouco ouço; já estou noutro lugar. Desvio o olhar, peço um último copo e acendo um cigarro.
Um empregado, camuflado pelas luzes a meio-gás, empurra preguiçosamente uma vassoura sobre o chão pisado mil vezes.

É o fim da noite, e nós ficámos, para contar como foi.