3.26.2007

Prazeres (pequenos)

Há pequenos prazeres na vida. Só que por vezes sabem tão bem, que preferia chamar-lhes pequenos grandes prazeres.

Pois hoje acordei com o sol rompendo pela janela, que faço questão de deixar bem aberta. A luz sacudiu-me e na vertigem matinal tomei um grande duche, arrumei a roupa espalhada pelo chão, atirei-a para o fundo da mala e sai.

Os óculos de sol hoje iam pendurados na gola da camisola, o dia estava demasiadamente único para eu lhe filtrar as gradações de cor e privar-me delas.

Lá chega o 12 pouco tempo depois. Durante a viagem aprecio Lisboa, a verdadeira Lisboa! Aquela da Graça e de Alfama. Vão entrando e saindo os verdadeiros lisboetas. Sim, que ainda os há! São aqueles nascidos nesses bairros e filhos destes. É com alegre rebuliço que se cumprimentam e falam de futebol, novelas, o estado do país. Hoje nem a conversa do “no nosso tempo é que era bom” me aborreceu.

Finda a viagem, Santa Apolónia. Paro num café. Peço uma bica. Aprendi que se chamarmos a coisa pelo nome ela até é tirada com mais cuidado e o empregado ainda nos dá um ou dois dedos de conversa. E acho que posso muito bem desistir do meu irritante “é um cafezinho se faz favor”.

Agora é só instalar-me confortavelmente no comboio e deliciar-me com este cd de JP Simões.

Há pequenos prazeres que não troco por nada.

3.14.2007

Mr. J - II

Mr. J rompe a noite. Mais um trabalho feito, mais uns trocos no bolso. Chega à cidade. Ao seu antro de vicio, decadência e pecado.
Estaciona a mota. Compõe o chapéu olhando em redor. As luzes da rua, como todas as luzes, incomodam-no.

Entra num dos poucos cafés ainda abertos aquela hora. Senta-se numa mesa ao canto. Pede uma cerveja. Puxa de um cigarro e aprecia o momento. É raro vê-lo por aqui. Apenas quando acaba os seus trabalhos, um ritual como tantos outros.
Quanto ao homem que deixou mergulhado numa poça de sangue atrás do balcão, já nem se lembra da cara. Há muito que deixou de ter consciência. Teve uma vez. Mas foi rápido, o tempo entre o único hesitar que teve e um disparo certeiro.
Atira uma nota para o balcão. O pedaço de papel gasto só é recolhido depois de ele sair, deixando no ar uma sensação de mal-estar entre os clientes.
A Night Train segue agora por uma rua mais estreita. Nova paragem. É uma velha pensão. Cumprimenta o porteiro de forma quase imperceptível. Sobe até ao último andar. Uma mulher abre-lhe a porta. Duas das maiores notas são colocadas na mesa-de-cabeceira de um quarto exageradamente ornamentado. A luz apaga-se. Ela já conhece os gostos de Mr. J. Os corpos crispam-se, suam, agarram-se, arranham-se…

Mr. J nunca teve uma relação. Aliás, as prostitutas são as únicas pessoas que estão algum tempo com ele e não morrem no final.