9.24.2006

Mr. J

Hora de fecho naquele café à beira na estrada. Os últimos clientes pagavam as contas e desapareciam na noite. O dono do “Fim da Linha” limpava preguiçosamente o balcão enquanto acompanhava a novela que passava na velha televisão.
Mr. J entrou e ocupou a mesa no canto mais escuro. Sabia bem ao que vinha, e mesmo assim decidiu pedir um whisky. “- Ó amigo não demore que já estou para fechar... – Não se preocupe…amigo.” Mr. J bebeu lentamente enquanto fumava um cigarro. Sacou de um bloco de notas. Mirou por detrás dos seus longos cabelos negros o homem que o servira. De uma lista de nomes riscou o primeiro com um lápis minúsculo. Levantou-se, arrastando a gabardina escura e bastante gasta. “– Quanto lhe devo amigo?” A nota foi atirada. Antes de tocar no balcão já estava manchada de sangue. O taberneiro tombou atrás do balcão. Mr. J guardou a sua Ingram M11 depois da nota e saiu murmurando, “- Merda para o silenciador…” Um velho assistiu a tudo petrificado. Ficaria assim mais uns largos minutos até ter coragem de entrar em pânico.
Entretanto Mr. J ficou à entrada do café até acabar o seu cigarro. Depois saltou para a sua Harley Night Train e foi engolido pela noite deixando uma beata mal apagada iluminada por um dos poucos candeeiros ali existentes.

Num destes dias...

À primeira vista aquele autocarro seguia para o Inferno. A alternativa seria um outro paraíso em tudo semelhante. Eram aterradoras as expressões dos meus companheiros de jornada. Talvez tivesse a ver com o facto de estarmos em Agosto e a distância mínima entre cada corpo ser um pêlo. O cheiro distanciava-se do convidativo e todos os suores eram suficientes para formar um novo caldo primordial. Havia quem se descentralizasse para sons vibrantes que inundavam o espaço (apesar de direccionados bem lá para dentro dos tímpanos), outros tentavam arranjar espaço para a leitura, mas as palavras não encontravam espaço no amontoado humano.
Depois de filtrado pela massa viajante lá me apeei. O exterior pareceu infimamente grande. Apesar de me sentir assolapado por uma vontade estúpida de desatar a correr mantive o meu passo apertado…