7.20.2006

Suspensão

Cheguei à estação muito antes da hora. Queria ter a certeza que embarcava, ou talvez tivesse uma pressa inmensurável de chegar ao destino. Tal como previra o local estava deserto. Pedi um bilhete como uma criança pede uma prenda ao Pai-Natal, só que este senhor apesar das barbas era mais rezingão que o velhinho das renas. À terceira lá percebeu qual era o destino. Confesso que até já eu estava com dúvidas. Depois da complicada operação da impressão do bilhete lá me anunciou “um atraso de uma hora na composição”. Ainda bem que vim cedo, pensei. A temperatura era tão alta que os meus pulmões gritavam por ar. O silêncio na estação era aterrador e, apesar de serem umas quatro da tarde, diria que a noite já ia longa. O céu cada vez mais nebulado. Ouviam-se trovões ao fundo. O ambiente parecia suspenso e eu para não ser excepção suspendi-me a contemplar. Claro que já sabia de cor cada traço desta estação, as caras das poucas pessoas que passavam também não tinham mudado. Aposto que os carros estacionados à entrada param sempre no mesmo sítio. No entanto, e como não havia nada que me distraísse, quis experimentar tudo como se nunca tivesse ali estado.

Nunca tinha olhado atentamente a rapariga que está sempre à porta do café da estação. Era como se fizesse parte de um cenário que nunca analisamos a fundo. Mas nesse dia olhei para ela como a actriz. O olhar era vazio, a roupa…mas era a mesma de sempre! E eu nunca reparara. Puxou de um maço e escolheu um cigarro como quem toma a decisão mais importante da vida. Acendeu-o e fumou-o preguiçosamente enquanto se instalava confortavelmente no passeio. Para ela o cenário também estava suspenso.
O chefe da estação, que sempre considerei um grande burgesso, lia um livro. Juro que nunca vi aquele homem ler! José Saramago, não sei qual o título. Aí fui maldoso e tomei a escolha como viciada. Deveria ser dos poucos autores que o homem tinha ouvido falar. Talvez tivesse sido conselho de um filho ou uma prenda esquecida lá por casa. Logo me arrependi. Fosse qual fosse o motivo, o chefe da estação estava imerso na leitura. Os poucos passageiros tinham que fazer um esforço para fazer notar a sua presença. Quando eram finalmente atendidos o olhar furioso da chefe da estação trespassava-os.
E as duas velhotas ao meu lado? Eram passageiras habituais, rara era a vez que chegava antes delas. Comentavam o tempo. “Isto vem aí borrasca da grossa”, “Onde é que já se viu em pleno Julho chover?”, “Isto já é nada como antigamente, está tudo mudado”. E foi a deixa para a temática “dantes é que era bom”. Claro que não vou transcrever o resto da conversa, foi muito longa acreditem.
E o tal rapaz que foi da minha turma em tal ano…reparei que apesar de o encontrar várias vezes na estação nunca lhe perguntara o que tinha feito da vida. Devia estar para fora, a estudar, ou a trabalhar. Sentou-se bem perto da linha e sacou do seu discman. A música suspendeu-o, não se mexeu mais um milímetro.

De repente o ribombar dos trovões sobe de tom. Creio que senti o cheiro a terra molhada antes de sentir o primeiro pingo na cabeça. Tinha acabado aqui a suspensão generalizada.
A rapariga apagou o cigarro e procurou abrigo dentro do café. O chefe da estação deixou o livro aberto e veio ver com os seus olhos a intempérie prometida. As duas velhotas viram-se forçadas a mudar de lugar e de assunto também. O rapaz, que nem o nome me recorda, afastou-se da linha e procurou abrigo dentro da estação. Só ouvia a música das gotas no chão ressequido.

Eu continuei suspenso…
Nesta chuva vou reparar.

Vou cheirar cada gota.

Vou senti-la como se fosse a última chuva desta vida…

7.05.2006

"Errante II - Até amanhã"



Algo me fez levantar da cama, procurar desesperadamente algo que servisse de indumentária. Sair, voar nas escadas de um prédio antigo onde cada passo é amplificado a todos os andares. Chegar à rua, olhar de frente o sol até doer, seguir encandeado por entre carros mal estacionados. Varrer vários horizontes com o olhar. Seguir aleatoriamente por um caminho caótico que se toca em certos pontos. Virar, voltar, sentir-me aprisionado nesta cidade. Gritar! Por mais que grite ninguém me vai ouvir e é certo que a minha voz não vai abafar o som da metrópole. A vertigem dá-me para chocar contra vários transeuntes, as desculpas são pedidas um quarteirão depois. O respirar é ofegante, os olhos estão esbugalhados, o suor descansa na testa enrugada, a marcha é arrítmica e destrambelhada. Sou outra vez assolado pela inquietação, pela busca, pelo desespero de quem caminha em círculos.

Finalmente…o Tejo.

A turbulência da viagem abranda. Tudo converge para um gesto simples. Sento-me no relvado. O rio, tal como a noite, é bom conselheiro. A sua música tolda-me o pensamento. Aprecio o momento…o sol junta-se ao espectáculo e a sua despedida assinala mais um dia.

Hei-de ficar ali mais um pouco, entregue a inquietações que se contorcem por ganhar forma e tornarem-se ideias sólidas. O tempo vai passar sem dar por isso. Quando a noite finalmente me envolver regressarei a casa.

Até amanhã mundo!

7.02.2006

Palco

“Diz-me se o medo
te chama
e a chama do medo
nos consome também.
Até que um dia acaba
e a chama do medo
nos deixa ninguém.”

Kwantta



A sede é saciada a partir do momento em que se pisa. O palco tem vida própria, sente-se o seu calor. É aí que embarcamos na viagem. No palco da vida, no palco dos sonhos, num outro palco qualquer, quem comanda és tu. Descansa que eu sento-me ali ao fundo, faz como se não estivesse aqui…

Muito fumo, muita luz, muito som, muita gente. Ouves os primeiros acordes. A banda entra em peso, transmite toda a sua energia numa explosão. Arrancas decidido, crias a tensão necessária ao refrão e ai rasgas as letras suportadas pela melodia que comunga nessa harmonia quase perfeita. Então tudo faz sentido! Já não há muito fumo, luz, som ou gente. És só tu e a tua criação num momento intimo de partilha. A suspensão é tão apetecível...será que o tempo parou?
Quando a magia acaba só tu sabes o porquê de tudo o que aconteceu. Mesmo que não existam, os aplausos invadem-te a cabeça.

Agora a sala está vazia. Como podes ver continuo aqui sentado. Não incomodei, pois não?

Dedicado ao 5º aniversário da minha banda