6.28.2006

Celebração

Um brinde à solidão, amargura, frustração, inveja, à tristeza porque não?! Tirem-me tudo, deixem-me aí abandonado numa praia. Num sítio onde se possa ver o nascer do sol, onde se possa cheirar o mar a cada onda. Onde sinta! Que apesar de tudo o que me pode acontecer, estou cá e estou vivo! Vivo! Pronto para sentir a mais imensa dor, a maior das alegrias, a mais profunda das tristeza, o maior dos amores. Pronto para surpreender, para desiludir, para odiar, para amar. E encontrar pessoas. Nunca conseguirei compreendê-las, é impossível! Temos perfeita noção que mais tarde ou mais cedo somos surpreendidos por quem menos esperamos. Nem a nós nos descobrimos a fundo. Porque chegamos a ter medo do que podemos descobrir! Pensamos e repensamos a vida. A nossa vida, às outras vidas que se cruzam...
Um brinde, bebamos à vida!

Teia, Muller, um presente...

André.
Um amigo que segundo ele próprio é "simpático, querido, fofinho, gosta de sorrir (vou é deixar-me de lamechices caralh*), ... sou a pessoa + frita que conheço, e sou heterosapiens!" fez questão de presentear o blog, cá vai entao:


"Da teia desce uma cama que é disposta ao alto. Duas figuras de mulher com máscaras mortuarias trazem uma rapariga para o palco e colocam-na de costas para a cama. Vestem a noiva. Atam-na a uma cama com o cinto do vestido de noiva. Duas figuras de homem com máscaras mortuarias trazem o noivo e colocam-no de frente para a noiva. Ele faz o pino, anda com as maos no chão, faz a roda a frente dela, etc.; ela ri sem se ouvir. Ele rasga o vestido de noiva e toma posicao encostado a ela. Projecção: Sexo. Com os farrapos do vestido de noiva as mascaras mortuarias masculinas amarram as maos, as mascaras mortuarias femininas os pes da noiva a cama. O resto serve de mordaca. Enquanto o homem, diante do publico (feminino) faz o pino, anda com as mãos no chão, faz a roda, etc., a barriga da mulher incha ate rebentar. Projecção: Parto. As mascaras mortuarias femininas tiram da barriga da mulher uma crianca, desamarram-lhe as maos, põem-lhe o filho nos bracos. Ao mesmo tempo, as máscaras mortuarias masculinas carregaram de tal modo com armas o homem que ele ja so consegue andar de gatas. Projecção: Morte. A mulher arranca o rosto, desmembra a crianca e lanca os pedacos na direccao do homem. Da teia caem sobre o homem escombros membros entranhas."

Muller

Obrigado!

6.27.2006

"Vida e Ódio"

Cenário: Sala sem janelas. Lâmpada fraca pendurada do tecto. Paredes nuas. Homem de pés e mãos atados a uma cadeira. À sua frente uma mesa.

Contexto
: Homem acusado de violação e homicídio de uma jovem. A família acaba de ser informada. Espera na sala ao lado, vão entrar um por um.

Acção:

Pai – Entrada em fúria. Esmurra o homem. Um soco mais forte derruba-o. Aproveita a posição, bate-lhe com a nuca no chão repetidamente. Brinda-o com bofetadas. Mostra sinais de cansaço, é com dificuldade que iça o homem. Compões-lhe a camisa. Cospe-lhe na cara e despede-se com um último murro. Abandona a sala a chorar.

Mãe – Entrada apática. Olha demoradamente a cara ensanguentada. Ao fim de largos minutos crava as unhas na cara do homem. Pele e carne são arrancadas. Mulher abandona a sala com a mão suja de sangue e o mesmo olhar perdido com que entrou.

Irmã mais velha
– A mesa é atirada contra o homem, derrubando-o. São distribuídos pontapés indiscriminadamente. Pára. Compõe a mesa e endireita o homem na cadeira. Senta-se na mesa de costas viradas para o homem. Acende um cigarro e fica a olhar um ponto na parede. Repentinamente encosta a beata à mão do homem. Um último pontapé e deixa-o estendido no chão.

Irmão mais novo – Entrada. Senta-se no chão olhando fixamente o homem. Beija-o na testa. Abandona a sala. Os lábios sujos de sangue.


“O Crisântemo Negro”

6.24.2006

Benvindos...para começar "Errante"

Levantei-me sem ninguém dar por isso. Não sei bem do que se falava na altura. Atirei um “até amanhã” e sai para a rua.
Aquele foi sempre o nosso ponto de encontro,o café “Sol”. Ano após ano encontravam-se sempre os mesmos rostos naquela sala mergulhada no fumo. Eram velhos amigos, amigos dos amigos, desconhecidos que acabariam por se tornar amigos.
Desci a rua. Sentei-me num banco de jardim. Acendi um cigarro e aí fiquei, contemplando as poucas pessoas que ali passavam.
No fundo procurava respostas para uma pergunta que não sabia formular. Aquele vazio acumulado fazia com que poucas coisas fizessem realmente sentido.
Uma prostituta dobrou a esquina. Foi abordada por um homem meio careca envergando um sobretudo, com óculos fundo de garrafa. A conversa foi curta, rapidamente desapareceram. Os camiões do lixo começavam a sua ronda. A cidade estava mergulhada num silêncio, pontualmente interrompido pelos sons que a noite trazia. O vento frio obrigou-me a levantar. Andei errante durante alguns minutos e finalmente fui para casa.
Procurei as chaves nos bolsos do casaco. Lá estavam, junto aos trocos que sobraram dessa noite. Entrei e liguei logo a televisão. Desde que vivia sozinho habituei-me a ter a caixa mágica sempre ligada, quebra o silêncio do apartamento. Fui até à janela. Por mais que olhasse nunca me cansaria daquela vista. O Tejo, a ponte sobre o rio, os telhados desalinhados dos bairros da capital, as luzes. Sentia-me sempre tão pequeno perante aquele cenário. Sentei-me no sofá, passava um filme pela segunda vez essa semana. Devo ter adormecido numa das muitas cenas chatas do vencedor de uma mão cheia de prémios.
Comecei a ouvir a sua voz. Fiquei eufórico, era impossível! Mas parecia bem real, estava bem perto até. Virei a cabeça e lá estava ela. Bela como sempre, a sorrir. Não conseguia decifrar o que dizia, parecia chamar-me. Levantei-me, caminhei até ela. Esperava o abraço apertado a que me habituou, mas a figura irrompeu em chamas e a sala voltou o vazio habitual.
Acordei, o filme já tinha acabado e uma senhora falava nas televendas. Tinha sido só um sonho, apenas isso, um sonho.

Gosto de sonhos, os sonhos nem sempre comandam a vida, os sonhos nem sempre me fazem sorrir, há até sonhos que fazem sofrer, mas gosto de sonhos…