2.16.2017

A Vontade

Impede-me de pregar olho, de descansar o corpo, de descansar a cabeça. Uma inquietação em fazer tudo hoje não me deixe pura e simplesmente avançar. O abismo de ter todo o caminho pela frente gela-me as opções. Bloqueio de olhar para a imensidão deste trilho. Nem lhe adivinho final. E, enfim prossigo, vou-me amparando em todos vós. De liana em liana, de humano em humano, de vontade em vontade. Sigo amarrado a mim mesmo, insuportável para mim próprio. Sigo sozinho. Desbravo caminhos só meus. Fecho os olhos mas o corpo parece que avança cama abaixo e parte de novo. O sufoco de nunca parar. A correria de estar em todo o lado ao mesmo tempo, apanhar tudo para que nada caia no chão. Esticar-me ao máximo sem dar cabo deste corpo. Comprometer-me a dormir melhor amanhã – que amanhã isto fica resolvido. Mas nunca fica. 

5.29.2016

Avô

Faz hoje um ano que a F. chegou perto de mim em silêncio. Eu já tinha percebido. - O teu avô morreu. Perguntou-me se me podia ajudar de alguma maneira. Como me conhece, abraçou-me e deixou me sozinho. Sentei-me ao computador. Não consegui chorar, apenas escrever.
Não cheguei a rever o texto, aliás só o voltei a ler hoje.

Vai tal e qual como está, por ele.



O meu avô morreu hoje. Partiu o último avô que me restava. Tive sorte, a morte levou por último o meu favorito (os outros que me perdoem mas sabem que é verdade). O meu avô foi durante muito tempo o meu melhor amigo. Os putos na escola falavam do seu amigo favorito e descreviam-no, eu só conseguia encontrar esse amigo número um no meu avô. Foi ele quem me ensinou a andar de bicicleta e que me viu cair vezes sem conta. Foi ele quem me ensinou a fazer a prova dos noves numa altura em que isso já não se ensinava na escola. Graças a ele fiz um brilharete. Dizia à boca cheia - foi o meu avô quem me ensinou. Foi com ele que tive a primeira e todas as seguintes conversas sobre gajas. Foi ele quem me falou no bairro alto quando fui estudar para Lisboa e me perguntou se ainda estava cheio de putas. Eu ri e respondi  que não, pelo menos que eu tivesse dado conta já não estava cheio de putas. Não havia tabus entre nós. Falávamos assim, sem filtros. Parecíamos quase da mesma idade. Foi ele quem me deixou pegar pela primeira vez num carro e quase que o ia espetando contra uma muro mesma à porta de casa. Foi com ele que eu passei muitas das melhores férias da minha  vida. Lembro-me de ficar feliz até rebentar sempre que descobria que ele nos ia visitar. Lembro-me de ficar horas a fio ouvi-lo contar as suas histórias. Era um óptimo contador de histórias, dos melhores que já conheci. Falou-me de uma tal guerra como nunca ouvi ninguém falar, falou-me da sua infância e nunca me escondeu nada. Nunca o ouvi dizer que eu não tinha idade para isto ou para aquilo. Para ele eu tinha a idade certa para saber o que ele tinha para contar. Já para o final a doença levou-o aos poucos. Tenho saudade das histórias. Tenho saudades de me sentar no seu quintal e ouvi-lo falar horas a fio, ou comentar as notícias, ou falar do Benfica (eu nem ligo a bola, mas era contado por ele). Tenho saudades de ele me fazer fatias douradas para o pequeno-almoço e de me obrigar a sair da cama cedo senão arrefeciam. Tenho saudades hoje, e as saudades não tendem a acabar nem a ficar mais pequenas. Eu cresci a querer ser como o meu avô, muito do que sou devo-o a ele por ter sido um dos poucos modelos que nunca me falhou. Ele partiu, dizem-me que foi para um sítio melhor. É pena a minha fé não chegar a tanto. Mas vou fazer por acreditar. Vou contar as tuas histórias até me cansar para que elas não morram também.

1.01.2016

Primeiro de Janeiro

A Laura começou a palrar lá no berço dela. Olhei para o relógio, 8 da manhã. Eu tinha dormido umas valentes 3 horas depois de uma noite moderadamente bebida. Nada mau, pensei.
Tomei um duche demorado com a água bem quente. Tratei da pequena, vesti-lhe uma roupa bonita, ao fim ao cabo gostamos de exibir a nossa gera com os melhores trapinhos não é verdade?
Desci até à sala. Toda a casa mergulhada em silêncio. Umas brasas ainda animavam a lareira da véspera. Remexi o fogo como se me quisesse acordar a mim próprio. 

Apreciei aquele momento, lentamente.

Não ligo muito à passagem do ano, mas esta manhã foi especial. Olho para a Laura a dar os seus primeiros passos, a brincar, a ficar cada vez mais esperta, mais conhecedora, enfim, a crescer. Ao mesmo tempo vou revendo o ano, não que o faça por tradição, mas porque a mente foi por aí. 
Dou por mim a pensar no privilegiado que sou, ao ter o tempo que tenho para estar com a minha filha. Concluo que dinheiro nenhum no mundo paga o que tenho. Percebo que é nesta profissão de pai que eu quero ser o melhor. Enquanto estou entregue a estes pensamentos a Laura dá cinco passos, volta-se para mim e sorri, acenando. Quero acreditar que ela percebeu o que eu estava a pensar. As primeiras pessoas chegam à sala, surpreendidas por já estarmos ali com um ar tão fresco. 
Tivemos a nossa manhã, perto da lareira, ela na brincadeira, eu entregue a bons pensamentos.

Desejos para este ano? Termos muitos momentos como este, em que simplesmente contemplamos os nossos filhos a darem os primeiros passos. Um bom ano para todos!


11.08.2015

Abdullah kurdi

É muito fácil opinar no conforto do nosso lar, sem bombas a cair na nossa rua. É mesmo muito fácil opinar enquanto despejamos ódio para o teclado, mas os nossos filhos dormem no quarto ao lado, e atenção, (pasme-se!,) estão seguros! 
É muito fácil ser cínico e hipócrita, pedindo para “os nossos que precisam” mas não fazer nada para ajudar esses mesmos nossos, nem abrir mão de um euro para tal. Deve ser a coisa mais fácil do mundo ter medo de algo que só se conhece da leitura de pasquins de pouca qualidade ou em artigos inflamados de neonazis disfarçados de betos neoliberais mas que no fundo sempre foram aquilo que agora revelam.
Acordem suas bestas! Estamos a falar de vos cair uma bomba em cima do vosso loft no meio do Príncipe Real, ou de uma turba invadir a vossa casa e executar a vossa família à vossa frente! Estamos a falar de perseguição constante e não poder mexer uma palha para salvar seja quem for. Conseguem imaginar não poder salvar de morte certa os vossos familiares e amigos?
Puta que pariu pá! Só não vomito de cada vez que vos leio porque comecei a mamar omeprazol. 
E se alguém ainda está a pensar que raio de título é este, usem a porra do vosso computador \ tablet \ telefone (que isso não serve só para tirar selfies) último modelo para pesquisar. É curta a puta da memória.

"Não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas lutarei até ao fim para que vos seja possível dizê-lo." 


5.08.2015

Estamos juntos!

Fazer parte de algo maior.
Maior do que eu, maior do que tu, maior do que eu e tu e mais alguém. 
Onde não perdêssemos a nossa individualidade, mas ao invés, ela brilhasse como nunca. 
Porque sozinhos, somos o quê afinal? 
Grandes, gigantes, a boiar na nossa solidão de sucessos? 
Egocêntricos, malabaristas do ego, figuras de proa de um navio náufrago?
Não, isso não serve para mim. 
Eu quero estar na melhor equipa, estar com os melhores dos melhores.
Quero fazer aquilo que faço melhor com os melhores que conheço. 
Quero partilhar das vitórias, quero ter alguém com quem chorar as derrotas. 
Quer dizer à boca cheia que a minha equipa é a melhor! 
Se eu os escolhi, e eles a mim, então não há que enganar. 
Estamos aqui para o que der e vier.
Estamos juntos!

12.01.2013

Juventude Sónica

Hoje é noite de ritual. Saem de casa, aspiram o ar como quem é dono do mundo. Como quem tem toda a vida à sua frente.
Vestem a confiança de quem não confia ainda muito bem no seu corpo. Elas aproveitam para mostrar as novas mudanças, a volúpia dos novos corpos que vêm adquirindo ao longo dos últimos meses.  Eles exibem barbas recém chegadas e uma explosão de borbulhas que compete com o nível de testosterona.
Códigos de cumprimento à chegada desvendam aqueles que andam mais à vontade nestas lides. Os mais novos atrapalham-se  ao cumprimentar o sexo oposto.
Criam-se grupos, acabam-se grupos, emergem líderes e outros são dispostos. Nesta proto-sociedade adolescente as diferenças começam a vir ao de cima, e as personalidades revelam-se. Não há limites, porque a juventude simplesmente abdicou deles; goza deste estatuto próprio. 
A música alta dispara na pista e na ilusão das luzes chovem bebidas. A vida é sorvida num longo gole. No momento a seguir o coração dispara, os olhos bem abertos captam a moldura humana que os rodeia. Corpos que se tocam, que se beijam, que suam como se por aí se libertassem da infância.
O mundo será deles, isso é certo, mas esta noite é preciso dançar.


8.14.2013

Série "Coisas Boas Não Têm Preço" - Capítulo I - O Jantar


Mariana saiu do edifício sujo que abrigava o call-center onde trabalhava. Na rua, as poucas pessoas que passavam, esfumam-se ao dobrarem as esquinas. Numa cidade fantasma, nada melhor que agir como um. E foi isso mesmo que Mariana fez. Meteu os phones nos ouvidos, escolheu a banda sonora para a viagem até casa, e caminhou até à estação de metro.
Pouca gente na estação também. Gostava que por ali passasse alguém que pudesse observar para se distrair. Só a música não a deixava ausentar-se. A humilhação desse dia de trabalho martelava-lhe o espírito.
Mariana, umas das melhores alunas do seu curso fazia, já se podia chamar assim, carreira num call-center. Deram-lhe um lugar ao qual chamaram algo mais pomposo. Ofereceram-lhe mais responsabilidades, vulgo dores-de-cabeça, e uma remuneração superior, vulgo algo-mais-que–a-miséria-inicial. 
Recta final de um dia de trabalho enfadonho, surgiu um problema, e às tantas Mariana já estava perante um superior odiável. Conversa para aqui, conversa para ali, depressa se chega à conclusão que a incompetência era sua, entre outros adjectivos menos simpáticos. 
Mariana sentiu vontade de lhe gritar: - Podes enfiar este emprego no cu ó meu gordo estúpido! Aposto que não vês a ponta da pila desde os 10 anos! No entanto ensaiou o melhor sorriso/ ar de arrependimento e sussurrou: - Lamento chefe… Com certeza chefe.
Fim da conversa. O chefe aligeirou o ambiente, lançou uma piada forçada, e desejou-lhe um resto de boa noite, como se tal fosse possível.
           Mariana sabia ao que ia quando se candidatou. Mas também sabia que as contas não se pagavam só da sua boa vontade em arranjar emprego na sua área.
Foi com o cérebro ainda aos berros com o otário do chefe que entrou no pequeno apartamento.
Sentiu um calor simpático e o cheiro característico da pequena casa no último andar de um prédio antigo. Perto da cozinha outro cheiro. Jantar?
Bolas Pedro, é preciso sujar tanta loiça? – pensou, enquanto contemplava a pilha, qual escultura pós-modernista de tachos e panelas.
Despiu o casaco e deixou cair a mochila a um canto. Já na sala perdeu largos minutos a apreciar a mesa. Tinham conseguido encaixar uma mesa a um canto, não era propriamente uma sala de jantar, mas servia para eles dois.
Velas, uma toalha lavada sobre a mesa e um bilhete – O jantar está no forno, desculpa se já não estiver acordado quando chegares. Amo-te.
E não estava. Pedro encostado com o comando prestes a cair da mão.
Pedro, que lhe preparou um simples jantar, que sujou mais loiça do que a necessária e que adormeceu antes dela chegar, foi o único a arrancar-lhe um sorriso que mais ninguém viu.



N. do A: Pedro e Mariana são personagens fictícias, assim como o chefe odiável, gordo, de pénis reduzido.